O perdão não muda o passado, mas revela o futuro

Tenho observado que Deus se serve até de pessoas insuportáveis, assim como os cirurgiões utilizam bisturis a fim de melhorarem a estética dos seus pacientes. Os que ignoram isto dizem o seguinte: Mas será que Deus precisa mesmo de nossas tragédias e traumas, ou dos pecados que outras pessoas cometem contra nós, ou de nossos próprios pecados e erros, para que possa operar seus planos e propósitos em nossas vidas?

Deus, não precisa destes recursos para cumprir os seus propósitos. Contudo, neste mundo decaído e imperfeito, são estes os materiais que ele tem para trabalhar. A maioria das pessoas não teve oportunidade de escolher os materiais. Nossa única opção é decidir o que podemos fazer com eles, e o que permitiremos que Deus faça por meio deles. Deus assim age porque está interessado em mudar nosso caráter. O objetivo é nos tornar mais semelhantes a Jesus. Então, Ele usa outras pessoas para nos alcançar. 


Veja o caso de José do Egito. Se alguém tinha o direito de se colocar no lugar de vítima, esse alguém era ele (Gênesis 37-47). José foi vítima dos pecados da família, da fraqueza dos amigos e das circunstâncias em geral. Movidos pela inveja, seus irmãos planejaram matá-lo. Considerando que seria errado tirar a sua vida, o venderam como escravo ao Egito e enganaram o seu velho pai, levando-o a pensar que ele estivesse morto.

José abriu caminho na casa de Potifar até uma posição privilegiada. Ele chegou a esse estágio por meio do excelente desempenho de seu trabalho e de um relacionamento íntegro com Deus: Mas o Senhor era com José, e ele tornou-se próspero e estava na casa do seu senhor, o egípcio. E viu o senhor que Deus era com ele, e que fazia prosperar em sua mão tudo quanto ele empreendia (Gênesis 39.2,3).

Então a esposa de Potifar tentou seduzir José. Quando ele se opôs, ela fez uma falsa acusação. Potifar demitiu José de sua responsabilidade e o colocou na prisão. Ali, mesmo como um prisioneiro, ele ascendeu a uma destacada posição. Deus trouxe o padeiro e o mordomo de Faraó à prisão, e José interpretou os sonhos de ambos. Mais tarde, o próprio Faraó mandou chamar José para interpretar o seu sonho e, subsequentemente, o nomeou o segundo governante em toda a terra do Egito.

Imaginemos o que teria acontecido se José tivesse ficado ressentido, dando uma de vítima e ainda tivesse blasfemado contra Deus. Ele teria ganhado o respeito daqueles ao seu redor? É óbvio que não! Em todas aquelas circunstâncias ele foi tratado injustamente, mas Deus finalmente o abençoou. Em vez de ganhar uma úlcera, ele recebeu honra. Em vez de reclamar, confiou em Deus. Em vez de apelar à corte, tornou-se um servo fiel. Mas José não teria feito isso, se não tivesse compreendido que Deus havia estabelecido às circunstâncias e o estava preparando para o futuro. Ele sabia que o perdão não mudaria o seu passado, mas revelaria o seu futuro.

As experiências de José foram sombrias. Sua vida foi cheia de decepções, maus-tratos e rejeição, medo e falsas acusações, escravidão e abandono. Mas, felizmente, ele terminou como um vencedor triunfante, pois sempre compreendeu que Deus estava no controle de tudo: Vós... intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para... que se conserve muita gente em vida (Gênesis 50.20).

O que José disse se cumpriu literalmente. Devido ao seu plano de conservação de alimentos, salvaram-se as vidas dos próprios irmãos que um dia pretenderam matá-lo. Embora José fosse vítima das atitudes hostis dos seus irmãos, quando teve oportunidade de puni-los com seu cetro de autoridade imperial, nunca se vingou. José preferiu deixar tudo nas mãos do Todo-Poderoso, pois sabia que o único direito do cristão é o de abrir mão dos seus direitos e entregá-los a Deus.

David A. Seamands, no seu livro Se ao menos, publicado pela Editora Betânia, faz a seguinte observação a respeito da história de José: Ela realça a distinção importante entre o perdão e a reconciliação. A Bíblia não garante que se perdoarmos, automaticamente haverá reconciliação com o transgressor. Muitos crentes presumem que isso ocorrerá, e, se não acontece, carregam um sentimento de falsa culpa. A reconciliação é uma estrada de mão dupla, porque envolve a outra pessoa – que nem sempre está disposta a reconciliar-se. Portanto, o perdão muitas vezes tem de ser uma via de mão única. Devemos estar sempre prontos para a reconciliação, mas esperando o tempo de Deus. Há casos em que poderá nunca ocorrer. No de José, embora tivesse perdoado aos irmãos muito antes, teve de esperar mais de vinte anos para poder reconciliar-se com eles.

Precisamos entender que até mesmo as pessoas que nos perturbam e nos incomodam são colocadas em nosso caminho pelo próprio Deus, a fim de que as amemos no poder do seu amor. Se recusarmos, tropeçaremos no próprio Senhor. As trevas da hostilidade tornam o caminho traiçoeiro, mas a luz de Cristo transforma as pedras de tropeço em calçada.

Quando pedimos a Deus que nos ajude a praticar o amor em cada relacionamento perturbado, ele ilumina nosso adversário de modo que possamos ver não um inimigo, mas alguém em desesperada necessidade de cura e de esperança. Ele nos mostra a causa interior do problema, além da palavra ou ação que nos fez sentir hostilidade. Aquilo que ele nos mandar dizer especificamente tocará o nível mais profundo.

Jamais chegaremos a ser grande coisa, se estivermos satisfeitos com o que somos hoje. Deus coloca indivíduos irritantes em nosso caminho a fim de nos tornarmos mais semelhantes a Cristo e mais devotados aos seus objetivos, e não aos nossos. Se soubéssemos como é a pessoa que Deus quer que sejamos, jamais ficaríamos contentes com quem somos.

JoomShaper